rochele zandavalli

Rever: retratos ressignificados amplia a abordagem acerca do gênero do retrato, trabalhando as questões de memória e identificação a partir da colagem de vivências, contando com uma estrutura ficcional. A problemática da identidade se torna mais complexa, colocando o observador em confronto com a dissolução do elo milenar entre um rosto e um nome. Em suma, questões imbricadas na própria forma como encaramos a fotografia e o retrato fotográfico aparecem problematizadas neste trabalho: morte e vida, passado e presente, presença e distanciamento, descartabilidade e permanência, realidade e ficção, natureza e artifício, dentre outras. Meu intuito não é o de amenizar esta tensão que o trabalho suscita, mas sim explorar a potência poética que daí aflora e mostrar como estas dualidades são experimentadas intensamente por nós durante a administração de nossas próprias vidas.

Se o passado é um apanhado de peças coladas e interpretadas subjetivamente pela memória de cada um (ou por uma memória coletiva, identidade acordada), por que então procurar pelo impossível: o passado “real”? O repertório de um tempo jamais permanecerá intacto, e, nessa inevitável impureza e transmutação, a reprodução se estabelece como único motor viável. Pois num acontecimento ocorrendo em tempo real, e em velocidade turbo, o minuto anterior já é um passado irrecuperável.

LIMA, Paulo Santos. Memória cheia: ao fim da memória e da história, o cinema sobrevive. Cinética, nov. 2008.