home

Me desculpe, foi apenas um lapso

 

A série é composta por fotografias instantâneas e que foram realizadas entre os anos 2000 e 2016. São registros pessoais, autobiográficos, que não tiveram a pretensão de serem expostos como arte na sua origem, mas que alcançaram uma densidade que me fez repensar a sua importância, significação e potência. A estética vernacular, bem como as falhas e as eliminações, são potencializadas no sentido de simbolizarem as imperfeições da vida e das relações afetivas. A fragilidade do artifício da fotografia como memória se apresenta nos ruídos e na incompletude das imagens. Essas imagens são nossos fantasmas desbotados, mas também são luzes ofuscantes, como no primeiro olhar. Pura ironia: na tentativa de eternizar a vida, registamos a sua impermanência. Eu me atrapalho, pois me ensinaram que é preciso acertar sempre, e fazer durar. Eles nos venderam a ilusão de que na maior parte do tempo estamos certos, mas nessa busca pela idealizada felicidade estamos constantemente envoltos em ruídos e tentativas que se sobrepõem, se fundem, se tornam difusas. Eu me atravesso. Erro e acerto não existem.

 

O projeto gerou um livro de artista com tiragem de 100 exemplares, lançado pela editora Cactus Edições. O livro possui 64 páginas em papel pólen e fiz intervenções com folha de ouro em algumas imagens. O trabalho foi exposto no Acervo Independente, Porto Alegre, Brasil; Encontros da Imagem, Braga, Portugal ; Outono Fotográfico, Ourense, Espanha.

 

 

Todos esses novos adoradores do sol

 

A série Todos esses novos adoradores do sol foi produzida a partir de 2013. Os principais conceitos que estão presentes nesse trabalho são: o simulacro, a relação entre natural e artifício, efêmero e  eterno, juventude e impermanência, desejo e consumo, vida e morte.  Na captação de imagens da natureza há uma separação com o referente. Ele continua vivo e irá aos poucos, perecer, mas na fotografia ele permanecerá pausado; nela o referente precisou morrer para se eternizar, para encontrar a durabilidade no artificial. As imagens aproximam o homem e a natureza, porém enfatizam a passagem do tempo, a fragilidade da vida. A fotografia e a arte, assim como toda a cultura, são construções que pretendem consolar-nos poeticamente, buscando uma representação eterna diante da iminência da morte e do desaparecimento.

Philippe Dubois alerta: “é disso que se trata em qualquer fotografia: cortar o vivo para perpetuar o morto”. Trata-se de decapitar o tempo, e proteger o instante de sua própria perda. “De furtá-lo para o revestir melhor e exibi-lo para sempre”.

 

 

Brilha (Rochele Zandavalli & Avalanche)

 

Criação por Rochele Zandavalli & Avalanche. A artista visual juntou-se ao coletivo formado pela dupla Virginia Simone e Matheus Walter, em mais uma deriva fotográfica. Esse projeto resultou também na produção de um videoclipe chamado Goin’ to Japan. As imagens reúnem características marcantes da produção fotográfica da artista, como a encenação, a pose, a moda, o absurdo, e apresenta efeitos estéticos de distorção de luz como reflexos causados pelo uso de filtros no momento da obtenção. A obra acontece a partir da oposição entre natureza e artifício. Um lugar ermo chamado Varzinha, verão de 2014.

 

 

Rubi

 

Rubi (2013) é uma série de fotoperformances de Andressa Cantergiani em colaboração com diversos fotógrafos, dentre eles, Rochele Zandavalli, onde uma mulher se suicida com a maçã envenadada em seu próprio sonho.

 

 

Rever

 

Rever: retratos ressignificados amplia a abordagem acerca do gênero do retrato, trabalhando as questões de memória e identificação a partir da colagem de vivências, contando com uma estrutura ficcional. A problemática da identidade se torna mais complexa, colocando o observador em confronto com a dissolução do elo milenar entre um rosto e um nome. Em suma, questões imbricadas na própria forma como encaramos a fotografia e o retrato fotográfico aparecem problematizadas neste trabalho: morte e vida, passado e presente, presença e distanciamento, descartabilidade e permanência, realidade e ficção, natureza e artifício, dentre outras. Meu intuito não é o de amenizar esta tensão que o trabalho suscita, mas sim explorar a potência poética que daí aflora e mostrar como estas dualidades são experimentadas intensamente por nós durante a administração de nossas próprias vidas.

 

Se o passado é um apanhado de peças coladas e interpretadas subjetivamente pela memória de cada um (ou por uma memória coletiva, identidade acordada), por que então procurar pelo impossível: o passado “real”? O repertório de um tempo jamais permanecerá intacto, e, nessa inevitável impureza e transmutação, a reprodução se estabelece como único motor viável. Pois num acontecimento ocorrendo em tempo real, e em velocidade turbo, o minuto anterior já é um passado irrecuperável.

 

LIMA, Paulo Santos. Memória cheia: ao fim da memória e da história, o cinema sobrevive. Cinética, nov. 2008.

 

 

Broderie

 

As duas séries fotográficas Broderie I, de 2009, e Broderie II, de 2010, também foram importantes caminhos para o desenvolvimento do meu trabalho, pois ambas se centram na temática do retrato fotográfico e no processo posterior de colorização, o qual uniu-se ao bordado diretamente sobre a cópia. O diferencial é que as fotografias não eram apropriadas, mas sim produzidas por mim em estúdio. O fato de trabalhar esta técnica bastante simples e de baixa tecnologia é usado em consonância com as ideias e escolhas já colocadas por mim ao longo de minha trajetória em artes visuais: o questionamento do valor material ou tecnológico, a busca da coexistência entre tecnologias, a mistura entre diferentes técnicas e suportes, a manualidade no fazer, a fisicalidade do objeto fotográfico, bem como uma aproximação maior com o aurático (mesmo que frustrada) em tempos de banalização da imagem massificada ou facilmente reproduzida e descartada. O uso do bordado em meu trabalho também atenta para as relações que se estabelecem entre as artes visuais contemporâneas e a tradição artesanal brasileira.

 

Cor incidente

 

Esta é uma série fotográfica com sobreposição de slides, tableaux vivants com influência do universo do cinema e moda. Uma obra retiniana, ode à cor, ao brilho, aos reflexos e ao grão fotográfico. 2007.

 

 

Futuro revisitado

 

A série Futuro revisitado: projeções fotográficas, produzida em 2005, explora a estética futurista de alguns clássicos de ficção científica como Aelita, a rainha de Marte ,Yakov Protazanov,1924;  Metrópolis, Fritz Lang, 1927; dentre outros filmes que profetizaram sobre os tão esperados “anos 2.000”. Como em outras séries aparecem os procedimentos de apropriação, sobreposição e colorização. O cruzamento temporal é sugerido pelas provocações que aciono. A recorrência anacrônica das imagens me interessa. A apropriação de imagens pré-existentes, sua reconfiguração e ressignificação através de estratégias artísticas, ato tão comum no contexto atual, nos faz refletir sobre o sintoma da sobrevivência das imagens e dos símbolos, e sua transformação ao longo dos períodos e das culturas que se sucedem.